quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

SAPIENS SABIENS


Máquina pensante
Animal no cio
Desejos carnais
Atacados por vírus

Tudo em circuito
Fuido, graxa na veia
Sem graça na areia
Visão sem cores

Chips de carbono
Hora certa no relógio
Tarde, noite, não existe
Sempre com esse ohar triste

Riso de hiena
Grunhir de porcos
Se perdendo na razão
Metódicos na paixão

Sou apenas sabiá
Pelo menos sei cantar
Sou uma espécie a sumir
Canto sem ninguém a ouvir

ILUSÃO

Pálpebras pesando
Sono me tomando
Nesta fria noite
Algo me seduz
Ainda me mantém vivo
Reluzindo algum vício
Nestas minhas noites solitárias

Prostrado e iludido
Isso não é real
Que mal faz?
Sei, mas não mo diga
Ainda me distrai
Porque a vida é grande
Grande como eu
Pequeno homem grande
Uma ínfima parte

VIAJANTE


Por que continuas a andar, viajante?
Perdido nas tempestades de areia
Desse deserto de letras
Por que ainda não parou
E agora mesmo ainda caminha?
Seu deserto não é quente
Seu deserto não é frio
E nada surge de bom nessa imensidão
Por que mesmo cansado e ridicuarizado
Ainda percorre esses campos de areia?
No deserto não há noite nem dia
Então por que, viajante
Por que ainda caminhas?
Não verás pôr-do-sol
Não verás anoitecer
Estás só e mal amado
Tem sede, mas não há água
Por que, viajante, ainda caminhas?

DIAMANTE

Por trás deste véu
Dos castanhos cabelos
Esconde-se o mel
Doce dos teus beijos

Não, nunca revele
A quem não mereça
Teu manto de mistério
Não deixe que pereça

Não percas o encanto
Em braços tão frios
Nunca te amarão
Como hoje te amo

Deixe o sol brilhar na face
Sinta o puro sentimento
De um amor que te enlace
No calor aqui do peito

Mesmo que agora longe
Quero que sejas feliz
Teu sorriso é meu sorriso
Aquilo que eu sempre quis

Mesmo que longe de mim
Não esqueças seu amante
Pobre ser que ainda te ama
Minha dama de diamante

VIVIDANAOVIVIDA


A vida não vi
__________vida?
O ar que respira
_______ expira
___Amor existe?
_________________Não
____Em poucas vidas vividas
________O raio é de todos
___Mas aquece poucos
______________Flores murchas
_____Muitas arrancadas
________Dor de não sentir dor
____________Sentes?
_____Não amar...
______________Corpo de luz
______________Escuro na veia
______________Medo de amar
_____Ridi
____Muito culo
________________Mas quem ainda é flor
______________________Tem fim como todos

VIDAS SECAS


Rio prateado pranteando
Uma lágrima perene
À luz do luar
Nossa vida
Em tuas águas
Agora estamos morrendo...

E tu secas dia-a-dia
A essência deste povo
Levando o verde da mata
Levando o sangue dos mortos
Penando, sofrendo
Secando...

FRANCO OU REAL


País das mil maravilhas
Sem saber direito a trilha
A seguir para crescer
Na de morrer já está

Este país tão imenso
Dimensões continentais
Perdido no próprio senso
No senso dos comunais

É o país do estereótipo
Da riqueza escondida
Nos bolsos de algum exótico
Esperávamos a lida

As semanas vão passando
O céu ficando mais cinza
Igorância transpassando
Em frequência progressiva

Um país entregue às moscas
Futebol, samba e mulatas
Que alegria ainda exalta
Sem saber mesmo porque

E este é nosso país
Que ainda conserva beleza
Com lama em vez de sangue
Destruindo a natureza

CALLABRASIL



A carne quente, a sangue frio
Amor vazio, ilusão pré-potente

Imagino nossa gente, toda
a se perder,

Queria poder julgar, ou ensina
a ética moral e ajudar

Para com o mal, saber lidar,
E nossa gente sofrida saber pensar.

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Agora não vejo nada
Nem a lua apareceu
Olho pro céu sem estrelas
Dizendo um último adeus

Olho para a triste casa
Tão cheia de cifras, contas
Tão vazia de vida
O dinheiro me amedronta

Agora não penso em nada
Meu olhar se perde ao longe
E escrevo sem emoção
Tão tranquilo quanto um monge

Olho os olhos desta gente
Que talvez não compreenda
Minha poesia contraditória
Tão bela e tão horrenda

Agora não há mais nada
E até o lápis desiste
Do poema inexpressivo
Até ele está triste

Porque não me vem mais nada
E os olhos estão opacos
A alma emudecendo
Acordes ficando fracos...

INFAMANTE


Não sou muito
Não sou pedra preciosa
Não sou ser de outro mundo
Não me veja como rosa

Não diga que sou poeta
Não valoriza demais
Essas letras infelizes
Essas frases triviais

Não me diga que sou tudo
Não, não minta tanto assim
Sou só perdido no mundo
Não há caminho pra mim

Não me diga que isso é belo
Não, não diga que é divino
São apenas alguns versos
Alguns versos de menino
(Por que eu escrevo coisas deste jeito hein?)