Eu tenho medo da tecnologia
Medo que ela acabe a poesia
Medo desse ritmo sem melodia
Que nem tem luz nem harmonia
Eu tenho nojo da ideologia
Que rima Marx com burguesia
Que junta amor com hipocrisia
E sexo com apologia
Eu tenho pavor da bio-socio-logia
Que penetra o útero sem passar pela vagina
Que rima infantil com homicida
E Brasil com Palestina
Eu tenho pena dos babacas
Das pobres matérias sem almas
Dos que gozam pelas nádegas
Dessa prostituta dita pátria
Eu tenho compaixão da galinha
Que põe ovo todo dia
Que alimenta tanta barriga
E que no fim também é comida
Eu tenho pena da criança
Das vitimas da esperança
Da sínica (des)confiança
Do futuro d’uma aliança
Eu tenho fobia do sistema
Que mistura clara com gema
Que dita à dura num poema
Censurando até telefonema
Eu tenho medo dos meninos
Dos que seguem sem destino
Dos pobres e dos ricos mendigos
Desse per-fuma-dor-fedido
Eu acho graça do alienado
Que rima hetero com veado
Que rima homem com macaco
E engoli até o esperma do gado
Eu acho graça dos sábios
Que zombam dessa rima
Porque rimo medo com azia
Só pra num perder a poesia
Eu aprendi com o valcian
Que rima bosta com maçã
E que no fim de toda manhã
Acredita nessa filosofia vã
Eu amo todos os meus inimigos
Que se incomodam com meu pinto
Só por ser um grande pinto
Que num aço e nem cuzinho
Eu quero mesmo é poetar
Que é melhor que punhetar
Nada deve relaxar
Nem espermentrar gozar
Eu tenho medo de cegar
Quando a luz do sol raiar
E o mundo todo escutar
O que eu tenho pra falar
Mais uma vez eu acho graça
Dessa gente boba e palhaça
Que acha a rima tão sem graça
Se não tiver nela cachaça
Eu gosto mesmo é da cegonha
Que não teve nem vergonha
De gritar sem cerimônia
Que fumava só maconha
O quê que importa a politizada
A mulher feia e esclerosada
Que num conta nem piada
Se o que vale é a gozada
Eu rimo TV com BBB
Duas siglas pra idiota ler
Pra descer as calças sem perceber
Que até com areia querem meter
Eu admiro a hipocrisia
Que converte todo dia
O mais nobre em parasita
Numa festa de alegria
Eu creio mesmo é na verdade
Que grita por toda cidade
Em nome da liberdade
Senhora da humanidade
Eu quero mesmo é me opor
A todo esse horror
Que se finge de amor
Pra destruir o que é pudor
Eu quero ter mesmo um pré-conceito
Melhor que essa falta de conceito
Dessa globalienação (dês)respeito
Que do conceito tem pré-conceito